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Na rota do silicone

2012 May 2
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Posted by Vladimir Cunha

O travesti tira a roupa e deita de bruços no colchão manchado. Apoiada com o joelho direito na beira da cama, Patita tira de um saco plástico de supermercado um frasco de álcool, um rolo de papel higiênico, uma bisnaga de Superbonder, um pedaço de papelão, uma seringa de anestesiar cavalos e uma lata cheia de graxa de lubrificar motor de avião. A única coisa que me vem à cabeça é o programa Comando da Madrugada. Apresentado pelo jornalista Goulart de Andrade, ele entrou para a história da TV brasileira ao gravar esta mesma cena quase 25 anos antes nesta mesma região de São Paulo. Se você tem mais de 30 anos, com certeza nunca esqueceu disso.

Ligamos as câmeras e a luz e eu aviso às duas que estamos prontos para iniciar a gravação. As mãos de Natasha tremem e ela me olha com preocupação. Desvio o olhar e me concentro no tráfego que passa silencioso pela Avenida Nove de Julho, emoldurado pela janela suja de fuligem do cortiço onde Patita se prepara para, mais uma vez, moldar o corpo da amiga em formas não exatamente femininas, mas voluptuosas o suficiente para satisfazer todo o tipo de fetiche.

A primeira agulhada vem sem aviso. Natasha grita e começa a lagrimar. O seu rosto perde a cor e tenho certeza que ela vai desmaiar. Nossa produtora se sente mal e precisa ser retirada do quarto. O silicone industrial, quando injetado dessa forma no corpo humano, queima o interior da pele e os músculos. Mais tarde ela vai ter febre alta e não vai poder sair da cama por, pelo menos, uma semana. Se algo der errado e o silicone se infiltrar na corrente sanguínea a coisa pode ficar séria. Natasha sabe disso, Patita também. Porém nenhuma das duas tem dinheiro suficiente para financiar uma cirurgia plástica. O buraco da agulha é tapado com Superbonder e papelão. Lá fora os carros continuam a ir e vir na Nove Julho, a cidade alheia a mais um dos tantos dramas que ela aprendeu a encerrar entre as quatro paredes de seus milhares de apartamentos.

A história começou com um e-mail de um amigo que mora em Nova York. Já havíamos trabalhado juntos em um projeto de branded content e, dessa vez, ele queria saber se eu poderia ajudar uma amiga sua em uma reportagem especial para a RAI, a TV estatal italiana. O tema era o tráfico de travestis brasileiros para a Europa e as máfias que atuam em Belém, São Paulo e Milão. Tinha que encontrar colegas de trabalho da travesti Brenda, assassinada na Itália em 2009 após ter supostamente chantageado o governador do Lázio (a polícia afirma que foi suicídio, ativistas do movimento gay falam em queima de arquivo), e pessoas que topassem falar como funcionam os grupos que levam travestis brasileiros para as principais cidades européias. Um trabalho de pesquisa e investigação que eu não tinha a mínima idéia se ia conseguir concluir com sucesso. Mas o dinheiro era bom e o tema interessante, uma proposta irrecusável.

Brenda, o travesti brasileiro cuja morte ainda permanece envolta em mistério.

Depois de um encontro inútil com um garoto de programa na lanchonete de um supermercado do centro de Belém, que tentou parecer saber das coisas, mas que não me rendeu nenhuma informação relevante, e uma entrevista tumultuada com dois travestis mirins do bairro do Reduto,  arrisco uma ida até a esquina onde Brenda fazia ponto quando veio do Amapá para Belém, antes de embarcar para São Paulo e de lá para morrer na Itália.

Madrugada na Travessa Humaitá esquina com a Avenida Almirante Barroso. O travesti segura uma garrafa de dois litros de refrigerante pela metade com alguma coisa que cheira vagamente à cachaça com algum suco de fruta. Dá para notar que seus dias de glória há muito ficaram para trás. Olhando rápido, chuto uns 40 e poucos anos. Difícil dizer, àquela altura, quem pagaria para comê-lo.

Ele se aproxima e pergunta se quero sexo oral ou anal.

“Nenhuma coisa nem outra”, respondo, “Sou jornalista. Quero conversar sobre a Brenda”

“Que Brenda?”

“A Brenda…a que morreu lá na Itália”

“Ah tá…a Brenda”

“Conhece ela?”

“Ixi, demais. Ela fazia ponto aqui com a gente”

“Pode falar comigo sobre isso? Estamos fazendo reportagem para a RAI a TV italiana…”

“Itália? As travestis todas adoram a Itália, né? Mas eu nunca quis ir. Prefiro ficar por aqui. Elas vem e vão e eu continuo aqui nessa esquina”

“Então. Tu pode falar?”

“Poder eu posso”, diz ela virando um gole de bebida, ”mas só se vocês não derem meu nome verdadeiro. E no dia da gravação não quero mostrar o rosto”

“Tudo bem. Eu sou jornalista, não sou da polícia. Só quero saber o que rolou. Fica tranqüila. Não quero botar ninguém na cadeia”

Um carro pára e dele desce outro travesti, bem mais jovem e bem vestido que Roberta, o nome pelo qual vamos chamá-la daqui por diante.

“Olha”, diz Roberta, “Essa aí é a Daniela, ela dividiu apartamento com a Brenda em Milão”

“Ei, bicha!”, continua ela, gritando, “Vem cá que o menino quer falar contigo!”

Os olhos de Daniela me parecem meio perdidos. Enquanto falo, ela observa fixamente o outro lado da rua, como se não estivesse prestando muita atenção na conversa. Ela bebe um gole da bebida de Roberta e me oferece um pouco. Eu recuso.

“Ele quer saber da Brenda”, diz Roberta.

“Eu morei com ela”, responde Daniela, “Agora tem uma coisa: os jornais aí ficam fazendo ela de santa porque ela morreu, mas ela era um meio enrolada, sabe?”

“Como assim?”

“Menino, no nosso meio todo mundo diz que ela roubou o namorado da outra”

“Que outra?”

“Da Michelle. Égua, essa Michelle era uma preta linda, os gringos babavam por ela. Veio de Belo Horizonte. E depois que a gente deixou de morar juntas a Brenda foi morar com ela. Até que ela roubou o namorado dela e as duas brigaram”

“Quem era o namorado dela?”

“Olha, diz que ele era o governador”

“Caralho…”

“Pois é. Parece que ele comeu o cu dela uma vez e depois disso, ela ficou chantageando ele. Obrigou ele a largar a Michelle e começou a pedir dinheiro direto. Ela e aquele namorado cigano dela”

“Mano”, interrompe Roberta, “a gente sempre soube que a Brenda roubava e fazia chantagem com os clientes dela. Isso não é novidade nenhuma”

“Pois é”, continua Daniela, “ ela chegou a roubar dele mais de 15 mil euros por mês durante quase uns quatro meses. Até que ela pediu uns 80 mil, parece, e eles brigaram. Logo depois ela apareceu morta”

“E o namorado?”

“Ninguém nunca mais viu”

Um carro pára e Natasha diz que tem que trabalhar. O motorista abre a porta. Ela entra e ambos somem na noite de Belém. Roberta bebe mais um trago e volta para a esquina para batalhar atrás de algum cliente.

A história das duas não era novidade, mas os detalhes sim. Vladimir Luxúria, transformista e ex-deputado do Partido da Renovação Comunista (PRC), já havia feito um certo barulho na imprensa afirmando ao jornal Folha de São Paulo que a morte de Brenda “não era suicídio. Há alguns dias, ele havia sido agredido, roubaram seu celular e levaram todos os seus números e mensagens. Eu suspeito de que alguém tinha medo do que Brenda sabia. Talvez ele tivesse nomes de outros políticos com que manteve relações”. Na mesma matéria fala-se, inclusive, de um grupo de carabinieri que teria extorquido EU$ 80 mil de Piero Marazzo, governador do Lázio, por conta de um vídeo em que ele supostamente aparece fazendo sexo com Brenda. Após o escândalo, Marazzo renunciou ao cargo.

Era o meu primeiro contato com o mundo dos travestis paraenses que fazem carreira na Europa. E foi a partir dele que, alguns meses depois, eu vim a conhecer a subcultura da prostituição gay paulistana, dos imigrantes ilegais e das cirurgias plásticas clandestinas.

Continua…

Rock’n'roll à milanesa

2012 April 30
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Rogers Waters, Queen, um café sem frescura, um cozinheiro bonachão, uma cantora brasileira e a melhor milanesa de Buenos Aires

“Reggaeton? Tem que ouvir rock. Aliás, o rock acabou, né? Ninguém mais ouve música que presta. Pegaê esses moleques. É só esse corte de cabelo, essas porras de reggaeton. Aí vê quem compra ingresso pro show do Roger Waters? Só velho que nem eu”

Norberto está tão indignado que fico com medo de ser expulso do restaurante. Tudo porque disse a ele que estava pensando em dar um pulo na casa de reggaeton e cumbia que acabara de inaugurar ali do lado.

O que seria uma pena. Afinal é do Don Ignácio a melhor milanesa de Buenos Aires.

Apesar da fama da cidade como o paraíso carnívoro da América do Sul e dos estabelecimentos do centro antigo, que tentam manter a duras penas a pompa dos dias de glória da capital portenha, é em um restaurante modesto da Avenida Rivadavia – perto da Plaza Once, entre camelôs, mendigos e prédios caindo aos pedaços, onde Buenos Aires se torna menos européia e entrega ser mesmo uma cidade de Terceiro Mundo – o lugar para ir se você quiser comer a versão definitiva desta que, talvez, seja a mais bonaerense das refeições.

Rafael, Dani e eu em nossa primeira ida ao Don Ignácio. A foto é do Norberto.

É a segunda vez que apareço no restaurante, um empreendimento familiar daqueles tão tradicionais que parece existir desde que o Tratado de Tordesilhas entrou em vigor, herdado por Norberto de seu pai, o Don Ignácio que dá nome ao lugar. O descobrimos por acaso – eu; Rafael Guedes, nosso homem em Buenos Aires; e Daniela, minha mulher – atraídos pela vitrine cheia de cartazes de shows de rock e fotos dos Três Patetas e dos Irmãos Marx. Lá dentro, paredes forradas por imagens e pôsteres de Bruce Springsteen, Queen, Tom Petty, Van Halen, Elvis, Travis Bickle, Dom Corleone, Frank Zappa e outros ícones da cultura pop. De um micro system no fundo, Pink Floyd em altíssimo volume. Os clientes nem ligam.

“Na minha época”, continua ele, cabelo grande, barba por fazer e camisa preta de mangas cortadas, “A gente curtia som. Ouvia Iron Maiden, Queen, Led Zeppelin…isso é música de verdade. Saca só”.

Mustapha, do Queen, explode no sistema de som do restaurante. A nossa comida chega. Tortilla espanhola recheada com batatas cozidas e lingüiça calabresa, duas milanesas e uma porção de batatas fritas. Não é preciso mais nada. A tortilla, como manda o bom senso, é crocante por fora, cremosa por dentro. A milanesa sequinha, sem aquele banho de óleo, feita com uma carne macia que eu não esperaria encontrar em um restaurante popular como aquele. Ao final, a grande surpresa: o café, decente, encorpado e bem tirado pelo próprio Norberto, sem grãos colombianos perfumados com cerejeiras da Nova Inglaterra, sem sotaque afetado, sem modelos da revista Vogue disfarçados de garçom, sem a afetação barista dos bistrôs “charmosos” da Vila Madalena. Mas direto ao ponto, de verdade, com gosto de fim de tarde na cozinha de casa, cumprindo com louvor a função de fechar uma refeição decente e honesta.

A conta? Pouco mais de 90 pesos (cerca de R$ 47 reais) menos da metade do que nos cobrariam por uma refeição similar algumas quadras acima, no lado chique da Rivadavia.

Eu e Rafael com Don Ignácio, o Poderoso Chefão da milanesa, atualmente aposentado.

Disco do Queen chegando ao fim e Norberto me conta sobre o show do Roger Waters que vai rolar daqui a algumas semanas. Ele me mostra os dois ingressos que comprou para o primeiro e o segundo dia das apresentações e duas revistas Caras com o ex-Pink Floyd na capa. É aí que, por causa do meu portunhol atrapalhado, Norberto me pergunta de onde sou. Explico que sou do Brasil e que era a minha segunda vez em Buenos Aires.

“Eu gostei do Brasil”, interrompe, “as bandas de vocês são muito legais”.

“Ah, as de vocês também”, respondo, “Fabulosos Cadillacs são do caralho”.

“São não…eram. Agora até eles tão metidos com essa história de cumbia. Nem eles querem mais tocar rock. Gosto do rock brasileiro. Sabe, eu tava no primeiro Rock In Rio. Vi Ozzy, Iron Maiden, Queen, AC/DC. E os Paralamas do Sucesso, claro. Essa banda é foda. Mas tem uma cantora muito boa no país de vocês e que eu nunca mais ouvi falar. Ela canta muito bem, as músicas delas são incríveis, mas aqui não se encontra pra vender nada dela”.

Pergunto que cantora é essa que mexeu tanto com ele e fico esperando ele citar Marisa Monte, Rita Lee, Elis Regina ou qualquer um desses clichês da MPB. A resposta me pega de surpresa.

“O nome dela é Joana”.

“Joana?”, pergunto sem conseguir esconder o riso.

Ao meu lado, Dani começa a rir. Norberto, desconcertado, se liga que cometeu uma gafe.

“Acho que nem quem é brasileiro gosta de Joana. Ela não é exatamente um sucesso de crítica. É uma cantora brega”, explico sofrendo para explicar em portunhol o que seria uma cantora “brega”.

“Não é tipo a Rita Lee pra vocês?”

“De jeito nenhum. Ela é ruim demais. Acho que ela não lança nada tem uns 20 anos. Se tu não fala o nome dela eu nem ia lembrar que ela existia”.

“Sério? Rapaz…então me enganaram”, responde ele às gargalhadas.

Sujeito incrível esse Norberto. Escondido em meio aos prédios decadentes da Avenida Rivadavia, ele vai tocando a vida como pode, cozinhando para bancários, vendedores, balconistas, motoristas de táxi, a classe trabalhadora que habita a região durante o horário comercial e vai ate lá em busca de comida boa e barata. Eventualmente, tem que aturar algum turista perdido como eu e minha mulher. Nunca entediado, sempre pronto a contar com a música para aliviar as dores do mundo. Daí o som sempre no talo, as paredes cada vez mais cheias de cartazes, fotos e capas de disco. Se um dia passar por lá, peça a tortilla, a milanesa com batatas fritas e o café. Caso esteja afim, puxe um papo sobre rock com o nosso simpático chef. Garanto que você vai ter uma das refeições mais divertidas da sua vida.

Um pequeno momento retrô.

Restaurante Don Ignacio
Avenida Rivadavia, 3439, quase em frente à saída da estação Loria.
Telefone: +11 4861-3133

Pagamento apenas em dinheiro.

Hip-hip-hipster

2010 November 21
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Se você tem mais de 30 anos você aprendeu a segmentar informação. Rock é rock, pop é pop, bicha é bicha. É o que separa você, que cresceu nos anos 70 e 80, da tal Geração Y, que floresceu sob uma nuvem de consumo pleno e saturação sensorial. E é, ao mesmo tempo, a glória e a ruína de quem tem 20 e poucos anos em 2010.

Porque faz todo o sentido que o cantor Mika tenha feito um dos melhores shows do Planeta Terra 2010 e que, justo ele, represente o que a música desse começo de milênio tem de mais descartável, confusa e (porque não?) fascinante.

Ele prova que qualquer convicção ideológica ou artística pode ser minada por uma pós-modernidade turbinada, capaz de permitir que fragmentos diversos de cultura pop possam ser usados e recombinados em nome da diversão. A reação é instintiva e não cerebral, talvez porque um show como esse aborte qualquer tipo de reflexão ou porque não exista mais espaço para a reflexão nos anos 00. Mika é Glee e Elton John, é Fred Mercury e Donna Summer, um musical da Broadway itinerante, pansexual e chapado para fãs saudosistas de O Rei Leão e A Pequena Sereia.

A figura do cantor libanês é o ponto onde se encontram todos os aspectos da cultura gay que, aqui e ali, permaneciam dispersos nas horas iniciais do Planeta Terra. O homossexualismo infantilizado do Of Montreal, a platéia obcecada por moda, os signos e dress-codes que remetem às festas hipster do Glória e aos bares mais tolerantes do Baixo Augusta. Ainda assim, a informação aqui não é mais segmentada, pois todos nós aceitamos que Mika possa ser rock, disco, gay, hétero, animação da Disney e pornografia softcore.

Só que, por mais que a sua alegria sinceramente alienada seja cativante, ninguém usaria uma camiseta com a cara de Mika ou de Thomas Mars estampada, muito embora garotos ostentando com orgulho camisetas de Kurt Cobain e Axl Rose ainda possam ser encontrados aos montes por aí. Mesmo que Mika saiba como comandar uma multidão e que Mars tenha se jogado em um crowd surfing digno dos anos de glória de Eddie Veder, quando todos nós éramos grunges, machistas e cheios de testosterona e problemas de auto-afirmação.

É quando fica claro pra mim que a música pop pode ter se tornado mais gregária e menos individualista, mais orientada para a celebração coletiva do que para o culto à figura do artista como o centro do espetáculo. Não à toa, os dois grandes fiascos musicais do ano – Los Hermanos no SWU e Smashing Pumpkins no Terra – surgiram justamente desse modelo, dessa proposta auto-indulgente de distanciamento do público e pouco caso com as regras da nova música pop.

Pois no mundo não há mais espaço para os solos de bateria do Smashing Pumpkins e nem para que Billy Corgan saia do armário e assuma que sempre foi um metaleiro enrustido. Melhor fez Stephen Malkmus, que entendeu o espírito da coisa e caiu na farra, tocando todos os hits que os fãs queriam que ele tocasse sem se importar com o fato de que há 11 anos a sua banda não lança uma música inédita.

Não se trata de pedir que o rock seja enterrado de uma vez por todas. O nó cultural ultra-pós-moderno do Planeta Terra tornou-se tão difícil de desatar que até os vovozinhos indies do Pavement se jogaram na pista ao invés de ficar em um canto da sala olhando a molecada se divertir. A diferença é que, ao contrário de Billy Corgan, eles eliminaram a tensão estática que separa a sua geração da geração que foi em massa ao festival no último sábado. Numa seqüência que começou com o som avant-garde do Hurtmold e se completou com Of Montreal, Phoenix, Mika e Pavement, “querer rock” não significava mais do que um gesto caricato, como o forrozeiro Zenilton em sua atrapalhada intervenção em Puteiro em João Pessoa. Segmentar informação pode servir como ferramenta saudosista ou processo de auto-afirmação. Por outro lado, cogitar todas as possibilidades pode ser a única maneira de sobreviver ao futuro.

Todas as festas de amanhã

2010 November 16
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Entre uma cerveja e outra na Vila Madalena, um amigo filosofava sobre festivais de música. “Cara, festival de música tem que ser a melhor festa da tua vida. É pra ir de galera, encher a cara, dançar e voltar de manhã pra casa. Quanto mais shows tiver melhor. E quanto mais diferentes eles forem entre si mais a festa vai ser foda”.

Lembrei dessa conversa no momento em que vi um menino, literalmente, se jogar no chão quando tocou a música-tema de Tieta, do inventor do fricote Luis Caldas. O mesmo garoto que dançava ao som indie do Teenage Fanclub e que armou uma quadrilha improvisada com os amigos quando o DJ emendou com Sou Camaleão, do Chiclete com Banana. E pra entrar no clima “24 hour party people”, um bando de loucos ainda tirou a roupa e se jogou no laguinho que cerca o deck do Centro de Convenções de Belém do Pará.

Era só a noite de lançamento e tudo indicava que o V Se Rasgum ia ser uma festa do caralho.

Mas quem está de fora não entende isso e desconfia quando digo no Twitter que Odair José fez um show antológico e que a molecada perdeu a linha quando decidiu invadir o palco do tecnobregueiro Nelsinho Rodrigues para dançar O Gererê. Claro, tem quem ande eternamente envergonhado de suas origens, disposto a classificar as coisas a partir de parâmetros defensivos e refratários ao novo. “Ah, Se Rasgum, é aquele festival de roqueiro com nome esquisito e aquelas bandas que ninguém conhece, né?”, argumenta o sujeito meio confuso, sem entender muito bem como (e porque) aquela Zona Autônoma Temporária surgiu do nada no bairro portuário de Belém.

Agora se ponha no lugar de quem estava ali, à beira do palco, vendo Odair José recriar seus clássicos bregas com o auxílio da excelente banda mineira Dead Lover’s Twisted Heart, que, de maneira esperta, resistiu à tentação de modernizar demais o som do velho trovador da MPB. Imagine poder ver um show no qual você sabe todas as músicas, todos os refrões, mesmo que não faça a mínima idéia de onde os aprendeu. E no qual ainda pode tirar a gatinha ao lado pra dançar e se divertir com o garoto que subiu ao palco em Pare de Tomar a Pilula para entregar ao cantor uma caixa de anticoncepcionais.

Lá de cima, Odair não conseguia esconder a surpresa ao ver dois mil e poucos meninos e meninas cantando A Noite Mais Linda do Mundo, Cade Você, Eu Vou Tirar Você Deste Lugar e todos aquelas canções de amor que a gente conhece desde criancinha. Talvez achasse ter sido chamado para fazer um show trash, para então ser sacrificado ao sucumbir soterrado por toneladas de ironia. Talvez não esperasse toda aquela carga de devoção e respeito, de um público que cresceu com a música brega em seu DNA, mesmo que more em uma cidade que rejeita isso como um defeito genético a ser corrigido nas gerações futuras.

O show de Odair era apenas a segunda parte da trilogia brega que fez da segunda noite do V Se Rasgum a mais divertida de todas. Minutos antes, a Graforréia Xilarmônica – cujos integrantes se plantaram no gargarejo e tietaram Odair José durante toda a sua apresentação – misturou fãs saudosistas e neófitos num bailão brega-punk-atonal que quase começa mal quando Carlo Pianta arrebentou uma das cordas da guitarra. O público broxou – até porque estava na pilha por conta do excelente show da Cabruêra, que veio antes -, a temperatura diminuiu e o que poderia ser o começo de um desastre foi contornado pela esperteza de Frank Jorge ao anunciar uma “música para troca de cordas de guitarra”. Na moral, levou uma música inteira só com baixo e bateria. Cordas trocadas, o baile seguiu animado com Empregada, O Patê, Bagaceiro Chinelão e Nunca Diga. Em Amigo Punk, um fã perdeu o controle e chorou copiosamente à beira do palco.

Depois disso o que restava a Nelsinho Rodrigues? Fazer o que sempre fez: botar o povo pra dançar. A recepção do público a músicas como Me Libera, Melô do Traficante e Coisas de Casal provou que, sim, o tecnobrega pode sobreviver como estilo musical e não apenas como uma curiosidade trash. É música para dançar agarrado, xavecando o broto, tirando uma casquinha entre um bate-coxa e outro. Foi o que fez quem se dispôs a entrar no espírito brega-pop de Nelsinho e até arriscou subir ao palco quando ele convidou o público para dançar o Gererê.

Terminado o baile brega-pop, o Cidadão Instigado fez uma apresentação voltada apenas para os fãs, seguido por Felix Robatto e sua guitarrada tecnobrega, que sofreu com problemas técnicos e com uma queda de luz. Mesmo assim, segurou as pontas e reverteu a situação ao chamar Gaby Amarantos para fechar o show.

Eis que entra no palco principal Otto Maximiliano fechando o primeiro dia do festival. Já passava das quatro da manhã e o precursor do mangue bit e sósia do Piteco estava mais animado que criança de sapato novo. Avisou que ia perder o vôo, que ia tocar mais que o combinado com a produção do festival e caetaneou ao fazer uma série de discursos sem sentido sobre o sol, a arte, o Universo e a vida marinha. Pediu licença ao público paraense para tocar um carimbó e cumpriu a promessa feita no começo do show. Saiu de cena às sete e meia da manhã na maior gandaia, cantando no meio da galera que ainda queria mais.

Difícil é encontrar disposição para mais uma maratona de shows depois da noitada de sábado. Mas rolou e o último dia do festival, apesar de não ser tão divertido quanto os dois primeiros, segurou a onda com o instrumental doidão do Projeto Secreto Macacos, o eletromelody de Marcos Maderito – O Garoto Alucinado e o hardcore dos Delinquentes. Já o rapper Emicida, um dos shows mais esperados do festival, não disse a que veio com uma apresentação burocrática e sem novidades.

No vôo de volta pra São Paulo – que me fez perder os shows do Dubalizer, Madame Saatan e Slackers – impossível não pensar na crise que o Se Rasgum acirra ano após ano. A cada nova edição do festival torna-se mais óbvio que é preciso resolver quais as intenções da parte dominante da cena de Belém do Pará, que não consegue ir além dos velhos clichês rock’n'roll. Um problema que se repete no som derivativo das bandas Dharma Burns, Paris Rock e Mostarda na Lagarta.

E aí sobrou de novo para o tecnobrega e para quem decidiu fazer as pazes com a matriz cultural do povo paraense. Isso ficou claro nos shows de Félix Robatto, Marcos Maderito e Felipe Cordeiro, que pode morrer na beira se não decidir se quer ser a Blitz, os Mamonas Assassinas ou ele mesmo. Pio Lobato continua tentando, mas a informalidade com que trata o próprio trabalho impede que ele siga adiante.

Belém já passou tempo demais sendo apenas uma promessa dentro do cenário pop brasileiro e tem potencial
para se firmar como um pólo musical realmente produtivo e influente. Mas é preciso que os músicos locais finalmente entendam as regras do jogo. Enquanto isso não acontecer, a cidade continuará vivendo de espasmos criativos e expectativas frustradas.

Espaguete, Disneylândia e os pecados do senso comum

2010 February 24

O livro Lexus and the Olive Tree foi um dos desvairios mais divertidos do neoliberalismo dos anos 90. A idéia mais simples (e simplória) por trás do testemunho de fé de Thomas L. Friedman na desregulamentação do mercado internacional, entre tantas outras, era de que o mundo caminhava para se dividir em dois grupos distintos: o daqueles que abraçariam a globalizacação e o consumo pleno, entrando numa era de maravilhas industriais e tecnológicas, e dos radicais tribalistas, estes últimos apegados a tradições, regionalismos e peculiaridades que não cabiam no admirável mundo novo do capital transnacional.

Para Friedman, a aceitação da globalização não era uma escolha e sim uma necessidade imediata de modernização e inserção no mercado mundial, o que, no final das contas, significava apenas a americanização brutal e passiva de todo o planeta Terra. Não existia um mundo possível longe das cadeias de fast food, dos canais de TV por assinatura, da livre iniciativa desregulamentada e do consumo sem reflexão.

Resistir era retroceder a barbárie, era negar o curso natural da História, uma teimosia esquerdista e tribal que desapareceria tão logo o mundo estivesse pacificado pelo consumo, com os arcos dourados do McDonald’s fincados em cada cidade do Grande Império do Capital como estandartes romanos nos morros da Palestina. Questões de gênero e de identidade, peculiaridades culturais e as matrizes ancestrais dos povos e nações, eram detalhes que a Marcha para o Futuro Neoliberal se encarregaria de varrer para debaixo do tapete.

Foi acreditando nisso, e em outras sandices, que países como a Rússia, Coréia do Sul e Brasil abriram as pernas para o capital especulativo e quebraram inúmeras vezes durante a década de 90 enquanto empresas como a Enron saíam das colunas sociais e dos editoriais entusiasmados da revista Fortune direto para as páginas policiais.

E se mais uma vez foi a regulamentação e a presença do Estado que salvaram o mundo pós-11 de setembro de várias recessões locais e de uma crise econômica mundial, em pelo menos um aspecto as teorias de Friedman se mostraram mais ou menos corretas: de fato, toda a ensebação neoliberal pode ter dado errado do ponto de vista ideológico e econômico. No entanto, aos trancos e barrancos, sedimentou as bases para o aparecimento de uma sub-elite mundial movida pelo consumo e a aceitação sem reflexão de qualquer maravilha tecnológica contemporânea. Uma espécie de pequena-burguesia pós-moderna que, no Brasil, surgiu na segunda metade dos anos 90 e floresceu de maneira plena neste final de década.

Nascida no período de maior estabilidade e prosperidade econômica do Brasil, ela, desde cedo, fez a lição de casa proposta por Friedman e aprendeu a globalizar-se através do consumo. Juntou dinheiro, foi à Disney, assistiu aos musicais da Broadway na viagem paga em 12 vezes, comprou a camisa dos LA Lakers, usou o agasalho do Hard Rock Cafe, chorou na queima de fogos do Castelo da Cinderela, tomou a água fervida que chamam de café na Starbucks, comprou seus primeiros CDs na Virgin Megastore, brincou de Friends em Times Square e hoje tem iPhone, iPod, iPad e qualquer outra buginganga de aço escovado que Steve Jobs inventar nos próximos seis meses.

A longo prazo, o preço pago por essa relação passional e pouco reflexiva com o consumo foi o surgimento de uma percepção mediada pelo mínimo denominador comum. Seja na cultura, na gastronomia, no turismo ou na arquitetura. O processo que, nos Estados Unidos, ficou conhecido como a “disneyficação” não só dos centros urbanos, mas também da percepção coletiva. No Brasil – onde a estilização do turismo e dos centros urbanos tem um impacto ainda maior na percepção de adultos e crianças, mais sujeitos ao deslumbramento por morarem em um país de Terceiro Mundo – essa aceitação do mundo “disneyficado” acarretou um processo contínuo de infantilização dessa pequena-burguesia a partir do momento em que ela aceitou viver através de tentativas de imitação dos padrões de consumo e dos produtos da indústria cultural norte-americana.

Como previa Thomas L. Friedman, o senso comum prevaleceu e o consumo passou a mediar as relações humanas e a construção de uma única visão de mundo. Não aceitar o senso comum é negar o caminho civilizatório mais óbvio e “correto”, é procurar a exclusão voluntária em um mundo que só pode concretizar suas promessas para o futuro através da uniformidade.

E então teríamos o mundo perfeito, o paraíso oco e corporativo como um cenário de Friends, a vida urbana comportada e sem-graça das sitcoms norte-americanas, com um McDonald’s em cada esquina, seus cafés Starbucks e hiperconectada em redes sociais feitas para se trocar um milhão de mensagens sobre o nada.

Sentado no restaurante Dom Giuseppe, um restaurante italiano localizado em um bairro nobre de Belém do Pará, não consigo conversar com meus companheiros de mesa. A menos de um metro, de frente para mim, uma TV de plasma de 42 polegadas despeja um show de Celine Dion em Las Vegas. A cada troca de luz, a cada espamo estroboscópico , perco a concentração enquanto Miss Dion canta as canções que lhe deram fama. O restaurante é caro, supostamente sofisticado, mas por todo o salão é possível ver casais, amigos e famílias comendo enquanto assistem ao show pela televisão.

Adotado pela classe-média alta belenense como símbolo de sofisticação e status, o Dom Giuseppe talvez subsista não por sua gastronomia e sim pelo conforto sensorial que parece proporcionar a uma parcela da população sedenta por replicar em sua própria cidade todos os aspectos dos grandes centros urbanos norte-americanos. A possibilidade de, em território doméstico, continuar a experiência de consumo idealizada a partir da TV por assinatura e de viagens ao exterior.

Daí a comida padronizada, a decoração insípida e as televisões de plasma com Celine Dion. Aqui, o que está em jogo não é a experiência gastronômica, a aventura do contato com outra cultura, o desafio da busca de sabores e padrões diferenciados. Pelo contrário, se vai ao Dom Giuseppe como se vai ao McDonald’s ou mesmo ao Olive Garden ou ao Spoletto, a busca pelo conforto do senso comum, sem riscos e surpresas. A necessidade imediata da experiência do consumo nos moldes dos parques temáticos da Flórida e dos centro comerciais “disneyficados” das cidades norte-americanas, os únicos destinos possíveis da pequena-burguesia paraense em férias.

As luzes se apagam e do teto desce uma iluminação colorida de boate. Os canhões de luz se movem, os globos coloridos giram e do fundo do restaurante surge um grupo de garçons dançando uma coreografia que parece ensaiada. De chapéus coloridos e adereços de mão, eles correm, cantam e dançam em torno de uma mesa onde, pelo o que eu entendi, alguém faz aniversário. No sistema de som sai Celine Dion e entra uma dance music genérica, acompanhada pelas palmas dos outros clientes do restaurante.

A experiência então deixa de ser adulta e passa a ser infantilizadora quando o restaurante de luxo se transforma imediatamente em um parque temático da Flórida. Ao invés de garçons podiam ser atores fantasiados de Pato Donald e se as luzes de boate fossem substituídas por canhões laser de algum brinquedo do parque da Universal Studios é possível que ninguém notasse. Um chapéu com orelhas do Mickey talvez pousasse meio matreiro na cabeça do aniversariante e, extasiados com aquele momento de puro devaneio estilístico, os convivas fatalmente se lembrariam de sua última viagem à Disneyworld. E de lá de cima de sua torre de marfim, Thomas L. Friedman sorriria feliz com mais uma adesão apaixonada ao McMundo.

Mas no mundo real os garçons cantam Parabéns Pra Você, a música fica cada vez mais alta e ai tudo volta ao normal. Na TV, começa um show dos Bee Gees já na fase decadente do final dos anos 90.

Fico meio sem ação depois dessa epifania de infantilização classe-média belenense em sua forma mais plena. Um restaurante supostamente sofisticado, com uma versão fast-food da culinária italiana onde as noites terminam com garçons dançarinos e os Bee Gees em decadência.

Enquanto como, continuo com a TV ligada na minha cara. Com um bronzeado igual ao da velha de Quem Vai Ficar com Mary? um Bee Gee, cuja roupa se assemelha a de um judeu hassid que detém o monopólio de imóveis em Nova York, luta para não desafinar em Stayin’ Alive. Luzes coloridas e canhões estroboscópicos explodem na tela. Me levanto e sem pedir a opinião de ninguém desligo a TV. Silêncio total. Numa mesa próxima, uma senhora vestida com estampas de zebra me olha feio. Para a minha surpresa quase todo o restaurante estava curtindo os Bee Gees. Ou a televisão, sei lá. Envergonhado e com uma cara de quem pede desculpas, um amigo liga a TV novamente. Tudo volta ao normal. E eu descubro que, de todos os pecados possíveis, talvez o maior deles seja ir contra o senso comum.

A hora e a vez da diversidade

2009 November 19
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Posted by Vladimir Cunha

Quando eu era criança e o Pinduca tocava no Festival do Sorvete da Praça Brasil, em Belém do Pará, a classe média da cidade não dava muita bola pra ele. Naquela época carimbó era cafona, coisa de pobre, de caipira. Trinta anos depois, Pinduca está sendo tietado por John e Fernanda Takai no backstage da quarta edição do festival Se Rasgum. E quando sobe ao palco e manda ver nos sucessos que lhe deram o título de O Rei do Carimbó, as cerca de duas mil pessoas presentes na segunda noite do festival dançam, fazem trenzinho e abrem rodas de pogo como se estivessem em um show dos Ramones.

O que é de se admirar em se tratando de um festival que, até dois anos atrás, carregava com orgulho o “Rock” no nome. “Se Rasgum no Rock”, assim mesmo, meio sectário, determinista e limitador, ainda não muito convencido do valor da diversidade musical da cena independente brasileira.

Difícil dizer o que mudou. Talvez tenha sido os roqueiros, pois Pinduca continua o mesmo. Do mesmo jeito que faz desde os anos 70, sobe ao palco como se fosse uma espécie de James Brown amazônico, escoltado por seguranças, com uma banda de 13 integrantes, seis dançarinos e um assistente que se encarrega de segurar a capa que lhe dá um ar de majestade. Em cerca de 45 minutos, toca os mesmos sucessos que todo mundo está careca de ouvir, mas que sempre funcionam: “Carimbó do Macaco”, “Sinhá Pureza” e “Esse Rio é Minha Rua”, entre tantos outros. Dança, faz elogios à Fernanda Takai (“Essa mulher bonita, cheirosa, talentosa”, repetiria ele diversas vezes durante o show) e coloca um garoto com uma camisa de David Bowie para dançar em cima do palco. Toca lambada, merengue e salsa. Termina o show com “Aquarela do Brasil” e sai do palco. No backstage, John e Fernanda já estão a postos para os devidos cumprimentos. A conexão com o Pato Fu se fecharia logo depois no show da banda mineira, que encerrou o
segundo dia do festival, com o casal improvisando no bis uma versão de “Sinhá Pureza”.

O namoro de Pinduca com o Pato Fu fez, para mim, todo o sentido. O que o IV Se Rasgum tinha de irrelevante – o pastiche indie rock de The Baudelaires, Dead Lover’s Twisted Hearts, Dharma Burns e Radiotape – pareceu ficar para trás quando o público passou a assimilar como música pop tudo o que o festival tinha a oferecer.  É o que possibilitou que o mesmo metaleiro que vibrou com os riffs do Black Sabbath que a Comunidade Ninjitsu enfiava no meio das suas músicas dançasse a lambada eletrônica de DJ Dolores e Pio Lobato no projeto Música Magneta. Ou que colocasse no mesmo campo de possibilidades a MPB de vanguarda de Marku Ribas, com sua banda de veteranos cuja habilidade nos instrumentos fez cair o queixo da molecada, e as maluquices e chiliques de Tatá Aeroplano, o líder da banda Cérebro Eletrônico.

Não importa como, o negócio era fazer a informação circular com velocidade e intensidade. Seja entre o público, no palco ou nos bastidores do festival. B Negão com Ras Bernardo no Digital Dubs fechando a conexão Lapa/Caribe/Jamaica no palco secundário. B Negão no palco principal com a Comunidade Ninjitsu cantando “A Dança do Patinho”.  Mano Changes, da Comunidade Ninjitsu, na platéia da banda Tecnoshow vibrando com “Galera da Laje” e “Red Label ou Ice”, os hits supremos das festas de aparelhagem de Belém do Pará.  Gabi Amarantos, vocalista da Tecnoshow, colocando o funk de apartamento do Bonde do Rolê no bolso com o seu tecnobrega safado e nada romântico. John, do Pato Fu, decepcionado porque perdeu o show de Gabi. Pedro, Gorky, Laura e Ana, do Bonde do Rolê, suando a camisa, mostrando os peitos e arriando as calças para tentar superar, sem sucesso, o caos que a Tecnoshow instaurou no palco secundário.  Esdras Neném, baterista de Marku Ribas, no backstage trocando idéia com Durk, baixista do Gork, prestando atenção em tudo, pilhado com as bandas mais novas e pesadas do festival. O uruguaio Paracetamol, vocalista do Hablan por La Espalda, tietando Jaime Katarro, da banda de hardcore Delinquentes. Jaime Katarro no palco secundário incitando o pogo e o mosh ao cantar uma versão thrash metal de “Pescador, Pescador”, um dos maiores sucessos de…Pinduca!

E o mais irônico é que a banda que deu origem a essa maluquice toda, que cruzou gêneros e fez o roqueiro perder a vergonha de ser brasileiro, pareça estar com o seu prazo de validade vencido. Só isso explica a apresentação arrastada e burocrática que Jorge Du Peixe e companhia fizeram no IV Se Rasgum. As músicas novas não empolgam e a banda soa repetitiva, com um vocalista sem carisma e pouco talento para criar melodias interessantes. Sobram os batuques (que dão no saco depois de uma hora e meia de show), duas ou três músicas mais pesadas e os sucessos compostos por Chico Science, que até animam os fãs mais xiitas da banda pernambucana. Mas a essa altura o jogo estava perdido e boa parte do público já tinha desistido de esperar algo mais da Nação Zumbi.

É engraçado ver que, ao mesmo tempo que os seus filhos e herdeiros descobrem e abraçam a diversidade, o grupo liderado por Du Peixe e Lúcio Maia se feche cada vez mais, reduzindo o seu som a uma fórmula meio caduca, como se eles próprios tivessem tirado a parabólica do mangue e esquecido as lições de Da Lama ao Caos e Afrocibederlia. O que era para ser um dos grandes momentos do festival tornou-se quase um constrangimento. Não que isso me desanime. A julgar pela disposição do público e das bandas, o legado da Nação e do mangue beat continua. Se não como música, pelo menos como conceito. No Se Rasgum, no Goiânia Noise, no Calango e nos outros 33 festivais que acontecem anualmente por todo o país. Vista assim, de perto e de dentro, a música independente brasileira nunca pareceu tão interessante.

Caetano Veloso não acredita em lágrimas

2009 November 6
Posted by Vladimir Cunha

- O senhor quer o quê?, perguntou o balconista da padaria pela quinta vez.
- Quero lirios plásticos do campo e do contracampo. Telástico cinemascope teu sorriso tudo isso. Tudo ido e lido e lindo e vindo do vivido, respondeu Caetano Veloso.
- Como que é?
- Quero teu bom só para o oco, minha falta. Sou Gitá Gogóia.

Já estava juntando gente. E uns espertinhos começaram a perguntar qualquer coisa só para tirar onda.

- E aí?, gritou para Caetano um sujeito sentado no balcão, vai dá Framengo ou Fruminense?
- Vai dar coro de cor sombra de som de cor de mal me quer…
- Aê, o maluco tá boladão, respondeu, em meio a gargalhadas gerais, um técnico da Telerj que arrumava a fiação telefônica do local.

Foi quando Dona Alzira, a governanta, chegou apressada, enxugando as mãos no avental do uniforme.

- Seu Caetano, tá todo mundo preocupado lá em casa, por onde o senhor andou?
- Andei por mais distante que o errante navegante…
- Faz meia-hora que ele tá assim, explicou o balconista.
- Minha Nossa Senhora.
- Senhora de Santo Amaro da Purificação de verde ver pé de capim, bico de pena pio de bem te vi…

Tinha começado mês passado, quando o morador do 601 resolveu puxar conversa no elevador.

- Calor, hein? Será que vai chover?
- Se vai chover ou não é sonho-segredo. Não é segredo…
- Hã?
- O que?, retrucou Caetano assustado.
- Nada não…eu, hein.

Naquele dia Caetano não dormiu, preocupado. E foi piorando. Certa vez, jogando WAR, avisou que seu objetivo era “conquistar uma coisa qualquer em você”. Alguém perguntava se ele queria almoçar e a resposta podia ser tanto “sim” quanto “Eu quero um bife de Coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro. Prego cego durando na palma polpa da mão ao sol”. A família decidiu levar no médico. Durante a consulta, Caetano reclamou da bexiga e disse que “estava travado a mente na ideologia”. Já não conseguia mais falar como gente. A imprensa publicava suas entrevistas bombásticas e incompreensíveis como se ele fosse Moisés descendo o Monte Sinai com as Tábuas da Lei. “Lula não diz o que junhos de fumaça e frio”, foi sua declaração definitiva sobre o escândalo do mensalão publicada em um jornal paulista. “Em que se passara passa passará o raro pesadelo”, apressou-se em declarar Caetano assim que o Rio de Janeiro foi escolhido como sede das Olimpíadas. Os jornalistas adoravam, os jornais repercutiam e a classe média fazia que entendia.

Só Dona Alzira, não se sabe como, conseguia decifrar o idioma caetânico inventado pelo patrão.

- O senhor quer o que?, perguntou Alzira, intermediando a conversa entre Caetano e o balconista.
- Quero me dedicar a criar confusões de prosódia. Quero que pinte um Amor Bethânia.
- Moço, ele quer um pastel de queijo e uma coxinha de galinha, explicou ela ao balconista.
- E pra beber?, perguntou o rapaz, já meio aliviado.
- Densa e negra como as águas do Abaeté, arrudiada de areia branca, arrudiada…
- Uma coca light, traduziu a governanta.

Caetano comeu e pagou no cartão. Mas ao invés de assinar seu nome escreveu no boleto um poema de 173 linhas sobre Joaquim Nabuco. O caixa reclamou. Pra evitar confusão, Dona Alzira tirou cinco reais do sutiã e pagou a conta.

Na saída, um rapaz passou por Caetano e lhe perguntou as horas.

- Hora da palavra. Quando não se…
- Bora embora, seu Caetano, bora embora, cortou Alzira empurrando o patrão de volta pra casa.

Três bons filmes com Al Pacino que ninguém lembra mais que ele fez

2009 November 4
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Posted by Vladimir Cunha

Cruising (Dir: William Friedkin) – Se tem um filme complicado é esse. Tem gente que ama, tem gente que odeia. E quem odeia em geral é pelos motivos errados. Em parte pelas cenas excessivamente explícitas de sexo gay suado e violento. Pacino é um tira de Nova York que aceita uma missão espinhosa: se infiltrar no submundo gay da região dos açougues de Manhatan, servindo de isca para um serial killer assassino de homossexuais. E quando digo submundo é submundo MESMO. Esqueça o colorido das drag queens e a alegria disco do Village People. O negócio aqui é couro, correntes, punk rock e sexo nas quebradas mais fedorentas de Nova York. O resultado em uma descrição não muito simpática da sub-cultura gay S&M dos anos 70. E não é para menos: no filme, ser gay significa andar parece um metaleiro, pegar porrada e trepar com qualquer um que passe pela frente. Obviamente a brincadeira enfureceu os ativistas pelos direitos dos homossexuais, que boicotaram o filme e organizaram brigadas cuja missão era atrapalhar as gravações. Política à parte, Cruising é um bom filme policial de horror, ambíguo e interessante por mostrar os dilemas morais de Pacino, cada vez mais perturbado com a própria sexualidade à medida que mergulha em infindáveis orgias e sessões de sexo sem compromisso.

Scarecrow (Dir:Jerry Schatzberg) – O mais foda é saber que Pacino fez esse filme modesto e despretensioso logo depois do mega-sucesso de O Poderoso Chefão, que foi o que lhe transformou no astro que é hoje. Basicamente é um road movie, uma espécie de Perdidos na Noite pé na estrada que conta a história de Max (Genne Hackman) e Lionel (Al Pacino), uma dupla de perdedores, cada qual lidando a sua maneira com o fim do Sonho Americano. O tempo passa e o que era desespero e solidão se transforma em laços verdadeiros de amizade e afeto, ainda que os dois homens estejam constantemente imersos em uma realidade violenta e decadente.

The Panic in the Needle Park (Dir: Jerry Schatzberg) – Tão realista que mais parece um documentário, The Panic in Needle Park mostra o dia-a-dia dos viciados em heroína de Manhatan. Como todos os filmes do período, a cidade é um lugar feio, sujo e violento, bem diferente da Nova York glamourosa e descolada de seriados como Friends e Sex & The City. Os personagens não fazem muita coisa além de perambular pra lá e pra cá, sempre envolvidos em pequenos golpes e sessões de consumo de heroína. E no meio de tudo isso, uma história de amor envolvendo Bobby (Pacino) e Hellen (Kitty Winn), que desde o começo a gente sabe que não vai terminar bem.

Christian Slater, Kurt Cobain e dois filmes que você deveria ver

2009 October 29
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“Às vezes você não tem a sensação de que a América está completamente fodida?”

Os subúrbios norte-americanos nunca pareceram tão sombrios quanto na cena de abertura de Pump Up the Volume. Ela é escura, lenta e suas imagens emolduram um monólogo desencantado de Christian Slater sobre a falta de perspectivas deste final de anos 80.

Slater é Happy Harry Hard On. Mais que um DJ de rádio pirata, ele é a voz dos adolescentes entediados e reprimidos da Hubert Humpfrey High School.

O anti-Ferris Bueller, que ao invés de celebrar a vida lembra a todos o quanto ela pode ser uma merda. O fã de Leonard Cohen, Sonic Youth, Pixies e Soundgarden que reclama que o mundo está virando uma imensa Disneylândia e coloca seus ouvintes no ar para falar abertamente de estupro, suicídio e repressão sexual.

E que convoca a molecada do fim de mundo onde mora a botar pra foder ao som Kick Out the Jams, numa versão inacreditavelmente do caralho feita pelos Bad Brains em parceria com a Rollins Band.

Mas Happy Harry Hard On é também J.D., o adolescente desajustado também vivido por Christian Slater que, junto com Wynona Rider, termina por levar a cabo um sinistro plano de vingança contra as meninas mais populares do colégio no filme Heathers, uma fábula amarga sobre a realidade das escolas norte-americanas, que de tão subversiva e violenta seria impossível de ser filmada nos dias de hoje.

Heathers e Pump Up the Volume são obras que se complementam. E encontram na figura de Christian Slater o veículo ideal para suas digressões sobre a condição do adolescente norte-americano da época.

Duvida? Então veja os monólogos inconformados de Happy Harry, tão perdido quanto seus ouvintes nas ruas sem fim da suburbia norte-americana.

Ou melhor: assista Heathers e as maquinações psicopatas de J.D., disposto com ninguém a acabar com a patifaria das meninas e meninos mais populares do colégio onde estuda.

Claro que ver Pump Up the Volume e Heathers depois dos 30 não tem a mesma graça. Afinal você já tem dinheiro, arrumar uma gata para uma trepada eventual não é mais um drama e, espero eu, descobriu que existe vida inteligente fora da escola, do clube e do condomínio.

Mas para o adolescente fodido e durango – e, vá lá, para alguém nos seu vinte e poucos anos, recém entrado na vida adulta – ambos os filmes são pau puro. Rebeldia e inconformismo na veia.

E ainda tem a trilha sonora, com o que havia de melhor na cena alternativa da época.

De um jeito meio maluco, Heathers e Pump Up the Volume antecipam outro fenômeno do mesmo período: aquele trio de porras-loucas de Seattle que, um ano depois de Pump Up the Volume estrear no cinema, fodeu com a indústria da música ao lançar um single de nome estranho e um clip vagabundo gravado num ginásio de escola, uma sacanagem meio torta com líderes de torcida, atletas, gatinhas populares e todo o sistema de castas dos colégios norte-americanos.

Happy Harry é lado atormentado de Kurt Cobain, o ídolo desgostoso com o seu papel de porta-voz de uma geração. À sua revelia, passa a liderar uma pequena revolução, que assume contornos cada vez mais trágicos à medida que Pump Up the Volume se encaminha para o final. E J.D. a metade punk  e violenta do líder do Nirvana, a pedrada na cara e a vontade de botar pra foder.

Ambos, cada um a seu modo, lutam contra o conformismo, a “ôtoridade” e a bunda-molice, seja ela na figura de uma diretora de escola repressiva ou de uma líder de torcida.

Não por acaso, os mesmos conflitos existenciais de Cobain, um sujeito que nunca ficou muito confortável com a carga de responsabilidade e expectativa gerada pelo sucesso do Nirvana mas que, ao mesmo tempo, não resistia à necessidade de ir a público jogar merda no ventilador.

Como Happy Harry, que só queria ter o seu programinha de rádio para extravasar suas angústias e tocar uns sons legais e, de repente, descobre que virou um catalizador da  raiva e do inconformismo de seus colegas de escola.

Heathers e Pump Up the Volume nunca foram sucessos de bilheteria. Ainda estávamos nos anos 80, se não cronologicamente, pelo menos em espírito, e filmes sobre música alternativa, rádios piratas, adolescentes em crise e o classicismo do sistema educacional norte-americano não tinham mesmo como dar certo.

Tivessem sido feitos alguns anos depois – quando Kurt Cobain e Smells Like Teen Spirit tomaram de assalto a MTV e a Nação Alternativa dominou o mundo, levando as corporações a descobrir que o inconformismo e o underground podiam dar (muito) dinheiro – talvez se transformassem em ícones pop tão cultuados quanto Pulp Fiction, Trainspoting ou Assassinos por Natureza.

Mas isso não aconteceu. E nem Christian Slater se transformou no astro que prometia se transformar. Talvez porque, ao contrário de Johhny Depp e Keanu Reeves, nunca teve um blockbuster para chamar de seu.

Mas, em algum ponto do final dos anos 80, ele faria dois filmes que ajudariam a definir o espírito do tempo da geração seguinte.

E o fez de maneira profética. Como quando Happy Harry grita desesperado e se pergunta se um dia irá surgir uma voz capaz de dar vazão à toda angústia e vazio existencial dos filhos da América.

Mal sabia ele que era só uma questão de tempo.

A Clockwork Playmo

2009 October 23
Posted by Vladimir Cunha

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Uma boa idéia para os fabricantes de brinquedos: Playmobil Laranja Mecânica.  O dia que tiver pra vender eu compro.